Quinta-feira, 7 de Outubro de 2010

Uma ida ao cinema...

Salas de cinema, mais não, por favor…


Era sexta-feira. Após uma semana de trabalho intenso e no fim de um dia de trabalho não recomendado a cardíacos, a única coisa que eu desejava era um serão calmo e reconfortante. Na esperança de tal, e na possibilidade de apreciar um daqueles raros momentos possíveis de passeio a dois com a mulher, coisa rara dada a nossa vida e a necessidade de cuidar de alguém que precisa de cuidados permanentes, lá convencemos o filho a ficar um pouco com a avó enquanto íamos disfrutar de um pouco de sossego. Escolhemos a sessão da meia-noite por supostamente ser a mais calma e aquela que por motivo de horário, nos permitia deixar, em casa, tudo resolvido e sem sobressaltos.

Entrámos e a sala ainda tresandava ao cheiro das gentes da sessão anterior. Procurámos o lugar correspondente ao marcado nos bilhetes e sentámo-nos. Faltavam cerca de cinco minutos para o início e aproveitámos para colocar os telemóveis em silêncio. Fomos assistindo à chegada, uns atrás de outros, de espectadores. Transportavam enormes caixas de pipocas e garrafais copos de cola. Fomos assistindo à dança das cadeiras, habitual entre aqueles que chegam e se sentam no primeiro lugar que aparece e os que legitimamente reclamam o seu lugar marcado. Era um levantar, mudar de cadeiras, sentar.

As luzes reduziram para metade ou menos. Apenas uma luminosidade que se deveria manter durante mais alguns minutos. Os copos começavam a ocupar o lugar no suporte na cadeira e as caixas de pipocas assentes no colo.

À minha esquerda, duas cadeiras afastados, um casal brasileiro, que não se calava nem um pouco, banqueteava-se com sandes e não sei que mais, pois o saco de onde tiravam as ditas era suficientemente grande para lá caberem uns frangos. Depois de terem andado a saltitar de cadeira em cadeira lá encontraram um local onde puderam, finalmente, instalar um autêntico piquenique. Só que não se calavam, nem com o raio da boca atestada de pão até transbordar. À minha direita, uma rapariguinha deleitava-se com um enorme gelado de copo, saboreando-o pedacinho a pedacinho com visível prazer, fazendo-o render por tempos infindos.

Na fila de trás, um grupo de imberbes adolescentes, entre gritinhos quase histéricos e gargalhadas, agarrados ao telemóvel, enviavam mensagens enquanto se ouvia o click-click das teclas. E, simultâneamente, ruminavam as pipocas, sonoramente, de boca aberta, como se ninguém lhes tivesse ensinado que se deve mastigar com a boca fechada. E, de vez em quando, aquele irritante sorver da bebida, através da palhinha, sobrepunha-se a todos os outros ruídos. Meu deus, pensei, esta gente vem para o cinema banquetear-se ou ver o filme? E, nessa altura já a sala estava empestada do cheiro doce enjoativo, agoniante até, das pipocas. Ainda olhei para a minha mulher numa interrogação sem usar palavras em que a questionava se não seria melhor sair logo nesse momento. Decidimos ficar.

O som surgiu e o ecrã permanecia negro. Talvez passados cerca de dez minutos alguém se lembrou que aquilo não devia ser um filme para invisuais pelo que deveria ter imagem e decidiu vir à sala comunicar, numa vozinha que mal se ouvia, que por problemas técnicos iam reiniciar a sessão. E, reiniciaram mas continuava a faltar a imagem na tela. E, reiniciaram novamente. O filme, que tinha inicio marcado para a meia-noite e dez, começou vinte minutos depois.

Lá tentámos ver o filme. E digo tentámos porque, entre o barulho da ruminação das pipocas, os sorvedouros sonoros dos sumos e os sussuros altos de conversas, era impossível estar com atenção ao filme. Deu-me vontade de dar um grito e mandar aquela gente parar, dez minutos que fosse.

O filme, embora interessante, não era própriamente “adrenalizante” pelo que, por várias vezes, senti o "João Pestana" sobre mim. Resisti muito a custo e lá se passou a primeira parte.

De repente, o intervalo.

Oh não, intervalo em filme à meia-noite significa serão até às tantas. Já me tinha torcido e retorcido na cadeira que a mulher perguntou se não era melhor irmos embora. Bem já que ali estávamos, íamos até ao fim.

E, lá suportámos, com algum custo, o estar fechado naquela sala, até terminar o filme. Quando terminou, olhei o relógio: três da manhã. Coitado do filho, que lhe dissemos que era rápido. Não que ele se atrapalhe mas não queria deixá-lo sózinho com aquela responsabilidade de ficar a olhar pela avó, sem ter ninguém perto a quem recorrer se algo acontecesse.

Levantámo-nos e percorremos os corredores entre as cadeiras, sentindo debaixo dos pés o esmagar das pipocas que haviam caído dos sacos. Havia caixas espalhadas pelo chão, outras entaladas entre as cadeiras ou até lançadas para baixo das cadeiras. Copos espalhados pelo chão, virados. A sala estava imunda. Eu sentia-me envergonhado de sair daquela sala e ser conotado com tal tipo de gente.

Saímos apressadamente, corremos para o estacionamento e tirámos o carro.

-Que raio de dia…- comentou a mulher – mas porque é que viemos ao cinema? Mais valia ficar em casa e que se lixassem os bilhetes. Esta gente não tem mesmo princípios alguns. Que cambada…, gentinha…

Sim, gentinha mesmo, o espelho singelo e puro da sociedade actual. Ali estavam espelhados os comportamentos sociais, de respeito e preservação, que são a actual norma.

-Vamos embora – disse eu - Tenho pouco mais de três horas de sono antes de ir trabalhar.

E, foi direitinho a casa e ao descanso.

Não, pensei eu, não me apanham mais numa pocilga destas. Prefiro esperar e alugar o filme ou comprá-lo e vê-lo calmamente num serão em casa, sem barulho. E,… sem pipocas, claro. E, reclamo o sagrado direito a poder apreciar algo para o qual paguei sem ser importunado por outros.

Mas, porque o filme até nem era mau de todo, aqui fica a sinopse do mesmo, retirado do site da Lusomundo.

 

 

Filme: Comer, orar, amar.


SINOPSE

Liz Gilbert (Julia Roberts) tinha tudo o que uma mulher moderna deseja – um marido, uma casa, uma carreira bem sucedida. Mas ainda sim, como muitas outras pessoas, sente-se perdida, confusa e em busca do que realmente deseja na vida. Recentemente divorciada e num momento decisivo, Gilbert saí da sua zona de conforto, arriscando tudo para mudar de vida, embarcando numa jornada à volta do mundo que se transforma numa procura por auto-conhecimento. Nas suas viagens descobre o verdadeiro prazer da gastronomia em Itália; o poder da oração na Índia, e, finalmente e inesperadamente, a paz interior e equilíbrio de um verdadeiro amor em Bali. Baseado no best-seller autobiográfico de Elizabeth Gilbert, Comer, Rezar, Amar prova que existe mais de uma maneira de levar a vida e de viajar pelo mundo.

sinto-me:

publicado por Francisco às 01:33
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